segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sementes invisíveis

Para o amigo Daniel Schor

Amantes (Two Lovers), filme dirigido por James Gray inspirado na novela Noites Brancas de Dostoievski, fala sobre fusões. Nesse sentido, tanto o título original quanto a tradução para o português são felizes, mas talvez seja ainda melhor considerar, ao mesmo tempo, as duas opções.
Considerar ao mesmo tempo as duas opções, aliás, é o que o protagonista Leonard, diagnosticado com transtorno bipolar, procura ao longo de quase toda a história.
Os pares são muitos – e estendem-se das fusões de negócios familiares à fusão de olhares. A fotografia, que beira o sombrio, azeda a água com açúcar que um olhar mais desavisado poderia esperar. E tampouco se equivale às fotografias em preto e branco que o olhar jovem e já cansado de Leonard recorta. Faz par com elas: vá lá, são amantes.
E os amantes, em Amantes, lembram um pouco os casais da “Quadrilha” de Drummond. O corredor com as fotos da família, por onde Leonard passa no início do filme, é emblema do peso que ele carrega – em alguma medida, um peso previsível.
O impacto da trama não é exatamente o fator surpresa. Interessante no filme de James Gray são as (im)possibilidades decorrentes das (com)fusões.
Do aborto ao sexo selvagem, do afastado bairro cinza à Manhattan multicolorida, na ópera ou em um Bar Mitzvah, em mania ou depressão, cedo ou tarde, toda luva espera por seu anel. O que nem sempre sabemos, contudo, são as circunstâncias que envolvem aquilo que acontece. E, mais do que isso, em que medida os próprios acontecimentos, às vezes previsíveis, ganham outros significados.
Felizmente, isso o filme não mostra – apenas sugere. Como as fotografias em preto e branco de Leonard – sementes invisíveis – em que há apenas paisagens. As pessoas, ele diz, não precisam estar nas fotos. Elas participam com o olhar.

domingo, 16 de agosto de 2009

Quando acordou, faltava-lhe um pedaço do dedo



– Tem dias em que me falta o ar.
– A mim, sempre faltou-me a vida.



Sinto falta da falta que a tua falta
um dia me causará



– Falta pouco.
– Pois sim, para quê?
– Pouco importa.

Os quatro microcontos acima valem-se da proposta contida em Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino Freire e publicado pela Ateliê Editorial. As narrativas não podem exceder 50 caracteres (descontados os sinais de pontuação).

quinta-feira, 23 de julho de 2009




Beatriz


No dia em que você quase morreu, eu vislumbrei pela primeira vez a possibilidade de escrever um romance. No dia em que você quase morreu, eu lamentei profundamente pela primeira vez não ter dito uma coisa importante a alguém quando ainda era tempo. No dia em que você quase morreu, eu perderia pela primeira vez a pessoa que habita cada poro das paredes do meu mundo antes mesmo que eu tivesse nascido. No dia em que você quase morreu, eu chorei como há muito, muito mesmo, não fazia. No dia em que você quase morreu, eu propus que, caso tenhamos uma filha, ela tenha o seu nome. No dia em que você quase morreu, o romance me apareceu em capítulos independentes e interligados, vermelha a capa. No dia em que você quase morreu, compreendi em tempo o verdadeiro significado de uma aprovação com distinção e louvor. No dia em que você quase morreu, fui me despedir acreditando ainda em um milagre. No dia em que você quase morreu, pude pela primeira vez de novo perceber que ser feliz é viver intensamente, mesmo na tristeza. No dia em que você quase morreu, a iminência do fim só fez mostrar que as coisas não acabam simplesmente. O sorriso que dispensa todos os dentes e ainda assim é imbativelmente lindo. Invencível. O corpo franzino que não cai: raiz: forte como palavra, em mais uma cisma despretensiosa, ele decretou humilde que não estava na hora. E até agora não estava mesmo. No dia em que você quase morreu, quem éramos nós para desmentir?

sábado, 27 de junho de 2009

A partida, filme japonês dirigido por Yojiro Takita, é o que de melhor vi no cinema nos últimos tempos. A despeito do Oscar de melhor filme estrangeiro, o filme esteve em poucas salas e deve sair logo de cartaz. Também a despeito do Oscar, é um filme lindíssimo: poético, inteligente, belos planos, engraçado e triste. Impecável.
*
A festa da menina morta
, de Matheus Nachtergaele, é um filme interessante. É compreensível que tenha participado da mostra “Um certo olhar” no Festival de Cannes do ano passado. A direção é corajosa e extremamente autoral. Os primeiros planos, sobretudo de corpos – muitas vezes cortados –, só aparentemente escondem (na verdade, revelam) a plenitude do rio, o colorido da terra, o mistério da morte.
*

Apenas o fim, do jovem Matheus Souza, tem bons momentos. Apesar da descomunal diferença entre os recursos, lida com muito mais desenvoltura do que Budapeste com a metalinguagem. E deixa, para os jovens criadores, um sopro de esperança que diz: “é possível”.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Na Folha de 12 de junho:
A universidade não é caso de polícia

VLADIMIR SAFATLE

AS CENAS de batalha campal que vimos nesta semana na USP ficarão na memória daqueles que dedicam sua vida a essa instituição. Vários professores, como eu, que nunca participaram de movimento sindical, que nem sequer foram alguma vez a uma assembleia, veem com estarrecimento a disseminação da crença de que conflitos trabalhistas devem ser resolvidos apelando sistematicamente à polícia.
Diz-se que a polícia era necessária para evitar piquetes e degradações. No entanto, tudo o que ela conseguiu foi acirrar os ânimos e aumentar exponencialmente os dois.
Vale a pena lembrar que, por mais que sejam práticas problemáticas que precisam certamente ser revistas, os piquetes estão longe de se configurarem como ações criminosas. A história das sociedades democráticas demonstra como eles foram, em muitos casos, peças necessárias de um processo de ampliação de direitos. Cabe a nós provar que esse tempo passou e que, devido à capacidade de diálogo, tais práticas não têm mais lugar.
No entanto, quando se tenta reduzir manifestantes que procuram melhorias em suas condições de trabalho a tresloucados patológicos que nada têm a dizer, que não têm nenhuma racionalidade em suas demandas, dificilmente alguma forma de diálogo conseguirá se impor.
Melhor seria começar explicando qual racionalidade justifica que a universidade mais importante do país, responsável por parte significativa da pesquisa nacional, tenha salários menores que os de uma universidade federal em qualquer Estado brasileiro.Por outro lado, há algo incompreensível na crença de que a polícia possa ser chamada para mediar conflitos com alunos e funcionários públicos. Muitos acreditam que ligarão para o 190 e receberão uma espécie de "polícia inglesa" capaz de agir de maneira minimamente adequada diante de cidadãos que se manifestam.
Contudo, o que vimos até agora foi uma polícia que entrou pela primeira vez no campus armada com metralhadoras, quando a ação padrão deveria ser, nessas situações, agir desarmada. Quem tem uma metralhadora nas mãos imagina que porventura poderá usá-la. Mas contra quem? Contra nossos alunos? E quem decidirá o momento de usá-la?
Como se isso não bastasse, uma polícia bem preparada não responde a provocações de gritos e latas com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha usadas na frente da Escola de Aplicação e de uma faculdade em que, normalmente, há crianças e adolescentes. O que aconteceria se uma bala de borracha atingisse uma criança, ampliando um pouco mais o enorme contingente de balas perdidas disparadas pela polícia?
Antes de ligar para a Polícia Militar, valeria a pena levar em conta seu despreparo manifesto em intervenções em conflitos sociais, histórico catastrófico mundialmente criticado por órgãos internacionais.
Nenhum leitor terá dificuldade de se lembrar de situações de conflito social nas quais policiais que se sentiram acuados reagiram de maneira descontrolada, provocando tragédias.
Por fim, contrariamente a certa ideia que um anti-intelectualismo militante gosta de veicular nestes momentos, vários alunos alvos de balas de borracha são extremamente dedicados em seus cursos, participam sistematicamente de colóquios e programas de pesquisa, apresentam "papers" em congressos e podem ser constantemente encontrados em nossas bibliotecas.
Sendo certo que vêm de todas as faculdades de nossa universidade (e não apenas da área de humanas, como alguns querem fazer acreditar), é inaceitável tratá-los como delinquentes potenciais. Dentre os 2.000 estudantes que se manifestaram nesta semana estão alguns de nossos melhores alunos.
Em vez de estigmatizá-los, talvez seja o caso de se perguntar contra o que eles se manifestam, já que, é sempre bom lembrar, antes da entrada da polícia, nem professores nem alunos estavam em greve. A greve restringia-se a funcionários.
Há um mês, em uma pequena cidade francesa, a polícia recebeu um chamado de possível furto. Em uma atuação "exemplar", ela estava em alguns minutos no local do crime. No entanto, o local era uma escola, o objeto furtado, uma bicicleta, e o possível ladrão, uma criança de dez anos. Sem pestanejar, a polícia retirou a criança da escola na frente de seus colegas, levou-a à delegacia, colheu seu depoimento e a fichou.
Possivelmente, foi contra esse modelo social baseado na incapacidade de resolver conflitos sem apelar à mais crassa brutalidade securitária que hoje nossos alunos se manifestam. Cabe a nós mostrar a eles que a história da USP é outra.

VLADIMIR SAFATLE, 36, é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Na Folha de 15 de junho:
FERNANDO DE BARROS E SILVA
USP, polícia e demagogia

SÃO PAULO - "Não se deve caluniar abstratamente a polícia". É conhecida a resposta do filósofo Theodor Adorno à reprovação que lhe fazia, dos EUA, Herbert Marcuse pelo fato de ter recorrido à força policial para barrar estudantes que tinham invadido o Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, no início de 1969. A polícia, escreve Adorno numa das célebres cartas ao amigo, "tratou os estudantes de maneira incomparavelmente mais tolerante do que estes a mim".
A USP não é a Escola de Frankfurt, 2009 não é 1969 e Suely Vilela não é... bem, a reitora já disse ser adepta dos livros de autoajuda. Alguém dirá, além disso, que há razões nada abstratas para criticar a ação da polícia no campus, o despreparo para lidar com situações deste tipo entre elas.
Sim, ninguém pode de boa-fé desejar a universidade ocupada.
Sim, a reitora é uma figura lamentável, e sua gestão, ruinosa. Mas quando os "progressistas" da USP vão ter coragem intelectual para criticar também o comportamento autoritário de uma minoria de funcionários grevistas que intimidam colegas e querem impor ao conjunto da universidade o que há de pior e mais privado no espírito corporativo?
Quando dirão que luta social e vandalização de patrimônio público não são nem devem ser sinônimos? Quando chamarão pelo nome o "fascismo de esquerda" de grupelhos pautados por estupidez teórica e desprezo sistemático pelos direitos dos outros?
Coube ao professor Dalmo Dallari, um veterano das causas democráticas, a intervenção mais lúcida, honesta e destemida a respeito do imbróglio uspiano. Em entrevista à Folha, na sexta, ele diz coisas como: a polícia que cumpre uma ordem judicial para proteger o bem público não é a polícia da ditadura; a pauta dos grevistas é desconexa e seus métodos são intoleráveis; a reitora é fraca, mas sua destituição agora desmoralizaria a instituição.
Eis, para os que não querem ficar presos a clichês mal digeridos da cultura meia-oito, um bom ponto de partida para o debate.

domingo, 7 de junho de 2009

À medida que se encontram os corpos, muitos se aliviam. A concretização daquilo que mais se temia traz tristeza e, sobretudo, alívio. Uma tragédia que, sem dúvida, a todos assusta. Mas que, igualmente sem dúvida, não parece muito diferente de outras – pequenas e grandes – situações que pautam a nossa existência. Como de hábito, a realidade se vê subjugada pela fantasia. Como de hábito, o absurdo pelo qual somos regidos vem à tona. Como de hábito, equipes supertreinadas estão a postos para que o paradoxo retorne ao fundo do mar. Como de hábito, a caixa-preta tem outro nome: morte. Como de hábito, essas equipes supertreinadas torcem para que ela não apareça (mas, se algo der errado, será um alívio). Como de hábito.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Budapeste (filme) não convence

Para L. F., mais ainda


Está certo que não é a primeira vez que vou ao cinema assistir a uma adaptação de um livro de que gosto muito e saio frustrado. Não nego que as expectativas envolvidas interfiram. Mas tampouco, uma vez que a nova obra nasce a partir da fonte anterior, é possível simplesmente “esquecer” o livro e “ver” o filme.
Ocorre, por exemplo, que assisti novamente a Ensaio sobre a cegueira e, sem dúvida, o distanciamento maior em relação ao livro bem como a possibilidade de ler o filme mais calcado a suas especificidades fizeram-me descobrir aspectos interessantes da obra de Meirelles, os quais não vislumbrara antes.
Duvido, contudo, que o mesmo aconteça com Budapeste.
O romance de Chico Buarque, publicado em 2003, é um dos melhores textos, senão o melhor, produzido pela literatura brasileira da última década. A habilidade, a poesia, a inteligência e a ousadia com que o escritor constrói um livro sobre livros combinam-se com tamanha contundência que não se estranha o fato de a narrativa extrapolar para a capa e contracapa.
O roteiro do filme procura manter o que há de essencial na trama narrada pelo escritor anônimo José Costa; “escritor”, portanto, e não “cineasta”. Isso, de início, coloca questões delicadas para a obra dirigida pelo fotógrafo Walter Carvalho, com roteiro de Rita Buzzar (que comprou os direitos para filmar o livro). Se a manutenção da essência, quando se cria uma obra a partir de outra, já é impossível, nesse caso tal impossibilidade se coloca de saída: não se trata de um “filme” sobre “filmes”.
Trata-se de um filme sobre escritos e escritores. A direção de Carvalho é boa; as tomadas na real Budapeste funcionam. O diretor, no entanto, parece atado às amarras de um roteiro questionável. Há uma cena em que sua câmera aparece, evidenciando a única investida na qual o diretor procura reproduzir um dos duplos presentes no livro. Tivesse feito isso mais vezes, talvez o filme fosse melhor. Na última hora, é tarde.
A boa direção de Walter Carvalho é, portanto, coadjuvante. E, nessa medida, o filme perde a (boa) chance de explorar, por meio da sucessão de fotografias, flashes do real, as oposições presentes no livro. Infelizmente, na obra dirigida por Carvalho, o protagonista é o roteiro. Como de resto, também para prejuízo do filme, há uma clara cisão entre direção e roteiro.
No texto de Chico Buarque, a propósito, os duplos confundem-se com a própria linguagem. Os diferentes cacos que compõem o texto são, na verdade, o próprio texto. Há uma personagem enigmática – sequer nome tem, chama-se apenas “Sr...” – magistralmente construída para a produção desse efeito.
O roteiro de Rita Buzzar, por outro lado, amortece quase todas as ambigüidades do livro. Ao abusar da preferência por Budapeste em detrimento do Rio de Janeiro, o filme aniquila a dose de angústia e conflitos encarnada por José Costa. A crise existencial trazida por meio de duas falas – “O autor do livro sou eu” e “O autor do livro não sou eu” – é sufocada. Desnecessário comentar o final feliz do filme.
Ao tirar o foco da personagem enigmática do livro (a que me refiro acima) e direcioná-lo para a estátua do escritor anônimo (que há de fato em Budapeste, mas não se menciona no livro porque Chico jura que não sabia de sua existência), o filme acerta. Problemático é o fato de que, diferentemente do romance, a estátua não assume a genialidade de um “Sr...” e de sua extensão – o autor mesmo do livro.
Antes, a estátua é emblema de um roteiro ruim e covarde.

domingo, 24 de maio de 2009

Pai e filha

Pai e filha quase partiam quando aquele se deu conta de que esta não colocara o capacete.
Ato contínuo, ele interrompeu a partida e pediu para a menina saltar da moto.
Ao virar-se com o capacete nas mãos, o pai testemunhou o exato instante em que um carro acertou em cheio sua filha.
Sempre ouviu que andar de moto era muito perigoso. Com a filha, então, chegava a ser negligência.
E quis o destino...

terça-feira, 10 de março de 2009

Milton Hatoum: leitura ilhada


Milton Hatoum, escritor brasileiro de ascendência libanesa nascido em Manaus, talvez seja o autor em atividade mais festejado de nossa literatura.
Em 1989, ele estreou com Relato de um certo Oriente, que lhe rendeu comparações com Lavoura arcaica e o Jabuti de Livro do Ano. Após um hiato de uma década, publica Dois irmãos, ganha outro Jabuti, e é mais celebrado ainda. Em 2005 aparece Cinzas do Norte: Jabuti, outros prêmios etc. etc. Em 2008, publica a novela Órfãos do Eldorado e, neste 2009, a coletânea de contos A cidade ilhada. Todos pela Companhia das Letras.
Só não li Órfãos do Eldorado. E não sei se concordo com tanta festa. É bem verdade que Hatoum (re)constrói o universo mítico de sua Manaus banhada pela colônia libanesa, na qual certamente inclui e trabalha fragmentos de sua memória. E, em alguns momentos, o autor consegue criar uma atmosfera tão mágica quanto real.
Mas essa dualidade - fantasia e realidade - nem sempre me parece bem acabada. É freqüente Hatoum descambar ora para um extremo ora para o outro. Relato de um certo Oriente, por exemplo, exagera nos adjetivos. Os períodos são intermináveis. O autor como que deixa pegadas (artificiais) ao longo do processo de reconstrução das memórias.
Em Cinzas do Norte, seu último romance, delineia-se o contrário. Tem-se a impressão de um texto bem planejado, bem construído. Vejo, lá, a maestria artística de um arquiteto (formação universitária de Hatoum). Preferível, diga-se, à afetação do primeiro livro. Mas, ainda assim, distante da excelência que lhe é atribuída.
Dois irmãos, espécie de releitura do embate entre Caim e Abel, é o seu melhor romance. Nele, no mais das vezes, Hatoum consegue aquilo que tanto parece buscar: carregar nas tintas com equilíbrio.
Até semana passada, não havia lido um conto sequer escrito por ele. Não sei o que diria (disse ou dirá) a crítica especializada. Provavelmente não celebrem tanto. Mas os contos de A cidade ilhada são as melhores narrativas escritas por Milton Hatoum que eu já li. A urgência pelo desfecho norteia os pincéis do artista. Não há tempo para exacerbações. Os traços perfazem-se na medida. E destacam-se – como uma cidade ilhada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

E o Oscar vai para...

O claro parentesco com Forest Gump não me incomoda. Nesse aspecto, O curioso caso de Benjamin Button é uma repetição que inova. Como naqueles casos em que lemos muito um mesmo autor (ambos são roteiros adaptados por Eric Roth) e podemos perceber que ele se repete, no bom sentido.
Mas um filme tão extenso sobre o tempo não poderia deixar de dialogar com outras obras. E esse é outro ponto forte. Quanto mais referências se apresentarem, maior o poder de identificação da história.
Quanto a mim, creio que a personagem Benjamin, ao sobrepor velho e criança com tamanha perfeição e muito bem interpretada por Brad Pitt, faz renascer – aqui, sem maniqueísmos – o ponto de vista positivo acerca do ser humano. A narrativa é bonita.
Ocorre que, conquanto o maniqueísmo não encontre Benjamin, ele ronda o filme em muitos momentos. Alguns exemplos. O contraponto da tensão provocada pela iminência do Katrina, a chuva que não pára de cair, o parentesco (voltando a falar nas referências) para lá de infeliz com Titanic, a repetição de um – primeiro belo, depois melado – nascer do sol, mistérios óbvios (desde o início) revelados apenas no fim, e por aí vai...
Colocando, tirando e pondo – como costumava dizer meu professor de Matemática da escola -, o filme é mais ou menos. Mais para mais, talvez. De todo modo, eu me emocionei com o sorriso de Benjamin. Que perfeito. E me lembrei dos primórdios do vídeo cassete no Brasil. Era moda alugar alguns filmes. Thelma e Louise era um deles. Se não estou enganado, lá está o jovem Brad Pitt fazendo uma ponta. Não sei bem por quê, mas vou ficar feliz se ele levar a estatueta este ano.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


Porvir que vem antes de tudo

Para o meu irmão

Hoje eu li uma nota na internet: Chaves, do SBT, obteve índices de audiência mais altos do que o recém-reformulado Globo esporte. Curiosamente, pouco antes de ler a desimportante notícia, assisti a um trecho do programa mexicano. Tratava-se do famoso episódio sobre as férias no balneário de Acapulco, traduzido aqui por Guarujá. Na infância, apesar de nunca ter sido muito fã de Chaves, conhecia bem esse episódio, e foi um tanto nostálgico rever o senhor Barriga cair na piscina.
É a coisa mais rara eu estar diante da tevê uma hora daquelas e, como se não bastasse, vendo Chaves. Mais raro ainda não estando em férias – e ainda na cama. Ou talvez seja mais justo dizer que estou em férias, e nunca trabalhei tanto como agora. Certamente haveria outras tantas possibilidades que tampouco definiriam este mês, em que, para citar outra bizarrice, tive de desmarcar duas vezes, na véspera, uma cirurgia.
Ainda haverá ajustes, desbastes, quem sabe um gran finale nas próximas horas, no fim de semana, no próximo mês – mas creio que hoje praticamente termino um texto que, a bem da verdade e para dizer o mínino, comecei há uns cinco anos. E que, a rigor, comecei há seis meses. Difícil saber.
Hoje eu pesquei no Café filosófico, da Cultura, uma referência importante, que já está no texto. Sinal dos tempos. Sábado dedetizam a casa. No filme, o conflito se resolve na morte. No romance, ele pode ser vivido pela escrita: vida, invenção, recriação. Mas, como sempre, nunca se resolve. Hoje o dia começou com Chaves, até agora doze horas de trabalho. Vou ter de mudar o título, desconfio. Ainda há lavoura a fecundar.

sábado, 17 de janeiro de 2009

No braço do violão


É uma questão de pegada. O braço rijo, os dedos tensos, a obsessão pela perfeição. Isso não funciona. Boa é a pegada ao mesmo tempo firme e desinteressada. Como um texto que flui bem a despeito – ou por causa – dos deslizes técnicos. Ainda que truncado. Queria compor letra de música sem que precise nascer outro filho. Assim como quem joga bola, de preferência pelada. De novo, a pegada. O que veio antes, a bola ou violão? Não sei ao certo. Preciso consultar minha cartilha ancestral. Mas, definitivamente, eu voltei a tocar.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Novo ano. A realização amanhã daquilo que houve ontem. É assim que tem passado - melhor seria dizer pesado? - essa antiga pedra no sapato de todos nós, o tempo. Mas que - justiça seja feita - também tem os seus momentos de glória, ou, para que se complete o efeito da frase, de brilho, um vez que, a depender da ocasião, o tempo pode facilmente passar por pedra preciosa. Mais ou menos como os contornos de uma fotografia, sempre a revelar com precisão onde estávamos, sem contudo jamais dizer onde estamos. Jamais. Seja por excesso de ignorância, por falta de coragem, ou - o que é igualmente provável, embora mais possível - por um combinado dos dois, falta e excesso, ainda não ouvimos em lugar algum a sombria revelação para o enigma: onde estamos? Ao contrário do que possa parecer, pois, não se trata de uma questão de espaço; este, conhecê-mo-lo bem, até demais. O mistério ronda uma outra dimensão. É que, neste mundo amalucado, fardo é tesouro. Onde é quando.



terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Feliz Natal



Antes da exibição de seu filme de estréia, num desses tantos festivais de cinema espalhados pelo Brasil, e de cujo nome agora não me lembro, Selton Mello disse, dirigindo-se à platéia: “Que teus olhos sejam atendidos”.

A expressão, muito bonita por sinal, é comumente utilizada no Líbano quando se deseja que os anseios do interlocutor sejam alcançados. Não há dúvidas de que Selton a tomou emprestada do título do documentário dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Que teus olhos sejam atendidos é rodado quase que totalmente no Líbano. Luiz Fernando estava em busca de referências orientais para o filme que iria dirigir: Lavoura arcaica, do romance homônimo de Raduan Nassar (paulista, descendente de imigrantes libaneses).

Selton Mello é o ator que vive o protagonista André em Lavoura arcaica. Não deve ser surpresa, portanto, que elementos da poética de Luiz Fernando Carvalho influenciem seu trabalho – agora no outro lado da tela.

Feliz Natal é fortemente influenciado por Lavoura arcaica.

Está certo. Meu olhar é tendencioso, afinal, tenho estado às voltas com o filme de Luiz Fernando um bocado nos últimos tempos. Mas é que as semelhanças são inegáveis mesmo.

E não o digo em tom pejorativo. O que me impressiona é não ter ouvido referências nessa direção em praticamente lugar algum.

Assemelham-se a fotografia, a luz, os primeiros planos (talvez em excesso), a terra (até a terra, apesar de Feliz Natal ser eminentemente urbano), as janelas que se sobrepõem – e se repetem.

“Filme de ator”; não faltou quem o dissesse sobre o filme de Selton. Não chego a discordar totalmente, mas resumir sua estréia nesses termos é certamente empobrecedor.

Há um olhar sensível atrás da lente (a própria lente?). Há um mergulho nas relações humanas, sem medo de sua feroz ambivalência, no âmbito de uma mesma família (outra semelhança para lá de inegável com o Lavoura).

Mergulhar nas relações humanas em uma mesma família. Emergir desse mergulho pode ser uma boa imagem para o que chamamos nascimento. Que seja de verdade, como o é Feliz Natal.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

É estranho. Mas tão óbvio: também. Quatro anos atrás. Encafifei que seria escritor. A literatura, as artes. Tão óbvio: tentativa de ordenar o caos. Cultura. Hoje eu andei sozinho no meio da tarde. No meio da praça, antes da chuva. No meio. E me lembrei de quatro anos atrás. Estranho. Quase te liguei. Mas são seria justo. Comigo. Com você. Precisava ficar quieto. Você entendeu. Você sempre entende, já te disse? E isso não é apenas um defeito como você pensa (que eu sei). Hoje eu soube de uma coisa que queria muito. Há quatro adormecidos anos. Talvez mais. Engraçado que hoje eu me aplaudi no outro ofício. No de sempre. Sem mesa e computador. Sentado na poltrona. Pessoas. Conflito. É tão óbvio: tentativa de ordenar o caos. Dos outros. Hoje eu escrevi um texto que não costumo. Hoje eu dei a notícia daquela coisa que queria muito à minha avó. Hoje a minha avó chorou. Hoje sinto que fui marcado a ferro. É tão bom. Mas tão doído. Tão óbvio. Hoje eu não vi o meu filho. E eu queria muito. Hoje eu não falei com meu pai. E eu queria muito. Hoje deu saudade da motivação dos alunos dos primeiros semestres. Eu amo o conflito. Que merda você não o ter percebido. “Incentiva alguns, exclui outros.” Que merda eu não o ter transparecido. “Você está conseguindo conciliar.” Que bom, Cravo. Hoje eu acho que às vezes consigo ordenar um pouco o caos. Como agora. O meu. Vou mesmo postar isso aqui? Acho que sim. Daqui para frente, só crônicas e críticas, por sinal. As ficções estão prestes a mudar de casa. Para onde? Hoje minha linda avó chorou com a notícia. E eu também. Se pudesse digitar música, seria a vinhetinha que abre e fecha o bêbado e a equilibrista. Ou seria god only knows. Ou um simples e sonoro foda-se. É tudo tão pequeno e tão óbvio quando nos misturamos às palavras. Vira música. Aliás, a magia está em ser espectador da própria obra.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Não devo ter sido o primeiro a pensar a analogia. Almodóvar e Woody Allen são muito diferentes. Tanto que se parecem. Cinema moderno com traços do clássico. Cores próprias – gritantes em um caso, pastéis no outro. A estrutura do texto que quase sempre – quando não o é de fato – lembra um conto filmado. Jamais um romance; no máximo, uma novela. A despeito das mulheres estonteantes, freqüentemente vividas algumas vezes pela mesma atriz, com quem o diretor, num e noutro caso, parece viver aventuras sexuais perversas – (quase sempre) longe da tela. O humor inteligente. Intensidade. A montagem cuidadosa; pontuação que lembra muito literatura... já falei da estrutura do conto?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Depois da escola, meio Gus Van Sant, foi o que de melhor viu numa mostra, por último, e nem viu tanta coisa; até pagou sem ver. Já discutiu isso um pouco aqui: talvez uma das facetas mais genuínas da Pós-modernidade (ainda bem que não gosta muito da expressão enquanto conceito) seja a multiplicidade de olhares que a (de)forma. Depois da escola vai por aí. E é bom demais.

Demorou para encontrar Paul Auster. Como assim? Mas é bom (re)descobrir um outro Estados Unidos. Meio por acaso, depois de ganhar uma história que já havia lido – outro americano recém-descoberto –, consegue cavar tempo para devorar Homem no escuro. Um velho, na escuridão do quarto, se deixa habitar por outras tantas histórias. Multiplicidade de olhares – no escuro.

Às vezes ouve uma mesma música infinitamente, por dias. Assim tem sido esta semana. Repetição intensa. E por isso novidade. O trem viaja a mil. Mas o impele também rumo ao passado. E segue. A repetição que vai sempre revelando pequenas descobertas. Multiplicidade de lugares: pessoas. Embaladas por sua escuridão, elas todas são velhas conhecidas. E se gostam tanto. Até fazem amor. Quebram o pau. Cantam com ele a mesma música. Essa que tem ouvido tanto – mas que nunca sabe a letra.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Onde você tá? Alô? Alô? Ai meu deus... ele foi assaltado. É a voz dele? É a voz dele? É. É ele. Espera aí, deixa eu ver. Alô? Xi... é ele. Dez mil reais? Ah, eu não tenho isso, não. É a voz dele mesmo? É, é, é. Mil em cartão telefônico? Calma, mãe, ãaaaaaaaaaa, vamos resolver, fica calma. E de repente a vida, tão entrecortada, emerge nos fragmentos concretos, irreais e reais ao extremo. Estreitamento brusco, toda uma cena entupida de tonalidades afetivas constrói-se em cada cabeça limitada pelo infinito. Tão antenado nessas coisas. Como um pato, refém de si mesmo. O recado, você não é tudo isso, sábado foi uma bosta, a feijoada de domingo custa mil reais em cartão da Claro. Claro? Fragmentos, mil-reais-em-moedas-de-um-centavo. Uma vida. Um lugar na família. Ele está agoniado, meu deus, meu filho. Alô? Quem é que está agoniado? Agoniada? Mundo de merda. O cheiro? Desculpe, é do mundo. É da vida. É a voz dele? Tem certeza? É. É, é ele. Vamos resolver então. Vamos resolver. O cheiro. Esse cheiro que você sente... “Eu não sinto cheiros.”

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Cegueira


Meses atrás, sem mesmo ter assistido ao filme, registrei neste espaço minhas primeiras considerações sobre ele. À época, fiz pouco caso da crítica, que em larga medida não o recebeu bem.

Mas eu tinha um bom motivo. Mais do que dirigir meu insignificante desdém aos críticos, eu quis enaltecer a beleza envolvida no encontro humano de Meirelles com José Saramago, que ficou muito emocionado ao assistir à obra baseada em seu romance.

Muito bem. Não nego que hoje eu serei vítima desse mesmo desdém. Ensaio sobre a cegueira, o filme, definitivamente não é uma boa adaptação.

Já nos primeiros planos, há um excesso de pós-modernidade, os veículos de último tipo, uma certa assepsia no tratamento da imagem, enfim, todo um conjunto de signos que não me parecem estar presentes na obra de Saramago.

Tecnicamente, o filme até funciona. Não é novidade a habilidade de Meirelles e equipe nesse sentido. O problema é o conceito.

A cegueira branca do livro não é a cegueira branca do filme. Absolutamente. Ora, o branco de Saramago é atemporal; é o branco meio amarelado, pastoso, opaco. Cheira forte. O branco que traz vida, libertação, poesia.

O branco do filme é artificial. É produto das telas de computadores. Produto do mundo das imagens, do consumo. Produto dos produtos. A frieza técnica de Meirelles, aqui, passa longe da habilidade técnica de Saramago.

Quase não há lirismo. À exceção de uma única cena, simplesmente não o há: a música de uma estação am toca só. É muito pouco.

A denúncia lírica do romance simplesmente desaparece. O filme se esconde. A pós-modernidade (e sua falta de sentido) não é contestada: é a matéria-prima da obra de Meirelles. A própria linguagem.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Futebol de 5

Certamente, é o que de melhor apareceu no cinema brasileiro no último ano. Mas isso é ainda muito pouco para fazer justiça a Linha de passe, dirigido pela dupla afinada Walter Salles e Daniela Thomas.

Se não há um único diretor, tampouco há um (só) protagonista – a despeito da Palma de ouro em Cannes para (a suposta protagonista) Sandra Corveloni. Quatro filhos e uma mãe grávida: cinco são as personagens principais; quase seis.

“Futebol é coletivo”, diz, no filme, um técnico de peneira. Linha de passe também. Como em todo caminho, a busca por sentido vai do passado ao futuro (não necessariamente nessa ordem) e se desdobra em muitos tentáculos. Desde o argumento até a montagem, é tudo muito equilibrado, além de bem executado. O time possui volume de jogo.

É ficção. Mas poderia ser documentário. Fosse documentário, passaria facilmente por ficção. Mais ou menos como um pênalti aos 45 do segundo tempo. E a grande chance de dar certo. Na vida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Trecho do conto "Senhor Travis"

"- Senhor Travis, uma última pergunta senhor Travis...
A assessora do velho escritor fazia que não, mais com os braços do que propriamente com as mãos. Mas Ralph Travis cometeu a transgressão de passar por cima da própria assessora.
- Respondo mais essa."

domingo, 17 de agosto de 2008

O moleque


O moleque vem se aproximando. Tem cara de bandido, não faz nenhuma questão de esconder. Que abusado. (Está mais perto.) Estou com medo. Vejo o cabo da faca que ele traz por baixo da blusa. Não faz nenhuma questão de esconder. Abusado, o moleque vem se aproximando. Uma cobra pronta para o bote: ele age.

Dois carros à frente do meu. Não tem medo de nada, reação, polícia, prisão. Também pudera; se for preso, vai ter comida todos os dias. Vai apanhar bastante – ele sabe. Mas porrada não é novidade. Se tiver sorte, vai deixar o sabonete cair algumas vezes. E nisso ele é chegado. Não faz nenhuma questão de esconder.

Vejo as notas que ele guarda por baixo da blusa. Abusado, o moleque vem se aproximando. Está mais perto. (Estou com medo.) O moleque passa pela minha janela. Frio cortante na barriga. A barriga cheia de nota. Acompanho sua partida do retrovisor.

Lá na frente, o farol verde. Tudo muito rápido. Emoldurado pelo retrovisor, o moleque vai ficando menor. Que abusado. Não tem medo de nada. Os carros começam a partir. Vai chegar a minha vez.

Olho de novo o retrovisor. O moleque escapou da moldura. Vai chegar a minha vez. Está mais perto. Estou com medo. (Reação, polícia, prisão.)


sexta-feira, 25 de julho de 2008



“Um corpo humano está aí quando, entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento, quando se acende a faísca de um senciente-sensível, quando se inflama o que não cessará de queimar, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado para fazer...”

“Eu não o vejo [o espaço] segundo seu envoltório exterior, vivo-o por dentro, estou englobado nele. Pensando bem, o mundo está ao redor de mim, não diante de mim. A luz é redescoberta como ação à distância, e não mais reduzida à ação de contato (...) Não se trata mais de falar do espaço e da luz, mas de fazer falarem o espaço e a luz que estão aí. Questão interminável, já que a visão à qual ela se dirige é ela própria questão.”

(Maurice Merleau-Ponty, “O olho e o espírito”)

sábado, 12 de julho de 2008

Trecho do conto "Desempate"

"Está nervosa, certamente. Entra no elevador mais atrapalhada que de costume. Ela sobe sozinha, e se olha no espelho. Precisa se certificar de que todos os vestígios foram eliminados, o que faz com uma espécie de gozo. Não pode negar – embora deseje – que vai entrar em casa com uma sensação de triunfo. Empatou a disputa.
Vira a chave receosa do que pode encontrar no outro lado. De volta para casa, o medo do desconhecido. Ele está no sofá, de frente para a porta, de frente para ela."

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Para L. F.
Quase personagem

A serpente, última peça escrita pelo contundente dramaturgo Nelson Rodrigues, está novamente em cartaz na capital paulista, dessa vez com Cynthia Falabella ao lado da irmã (que já estava na montagem anterior), Débora, ambas protagonistas do espetáculo, que tem a direção de Yara de Novaes.
Como de costume, o universo de Nelson Rodrigues é sempre muito verdadeiro. Carregando nas tintas, tanto para o lado do humor quanto para o da tragédia, o escritor alcança a simplicidade. Nelson Rodrigues é direto ao extremo.
A peça fala do amor e da disputa (ódio?) entre irmãs. O fato de as atrizes serem irmãs na vida real confere, é verdade, uma tonalidade especial. Mas a surpresa maior, nesse sentido, fica por conta da espetacular interpretação da irmã menos famosa (e 7 anos mais velha). Mas isso não bastaria, evidentemente, para um resultado positivo. E a peça funciona.
A linha tênue entre a tragédia e a comédia, o amor e a disputa, o desejo e a censura etc. preenche todo o palco. Esse talvez seja o principal êxito da boa montagem.
Tamanho é o jogo de forças que as polaridades, ao se repelir, atraem-se. É a própria energia da trama. Assim, a parede-meia que divide o quarto das irmãs transforma-se concretamente na linha tênue entre uma força e a sua complementar. E, diante disso, há um grande acerto envolvendo o cenário.
Os quartos (na história, colados um ao outro) ocupam as extremidades opostas do palco. A parede a que uma irmã se recosta para ouvir o que se passa no quarto ao lado dá para a coxia. E assim simetricamente no outro quarto. As forças intensas, ao se atrair, esparramam-se pelo palco.
Então a peça se desenrola. Há espaço para isso: é teatro. E a linha tênue, aquela que divide os dois quartos, transforma-se em personagem. Que contém a contundência concreta de um abismo.


quarta-feira, 25 de junho de 2008

“Houve uma segunda aberta entre as nuvens espessas que me cobriam: percebi muitas caras, palavras insensatas. Que idade teria eu? Pelas contas de minha mãe, andava em dois ou três anos. A recordação de uma hora ou de alguns minutos longínquos não me faz supor que a minha cabeça fosse boa. Não. Era, tanto quanto posso imaginar, bastante ordinária. Creio que se tornou uma péssima cabeça. Mas daquela hora antiga, daqueles minutos, lembro-me perfeitamente.”

Trecho de Infância, romance autobiográfico, bonito e difícil, de Graciliano Ramos (Record).





“Era assim mesmo: a severidade e a falta de tato de um jovem cheio de vitalidade, sem nenhuma dúvida a respeito de sua coerência, tornado cego pela autoconfiança e pela virtude de saber o que é mais importante. A implacável consciência da necessidade. O impulso aniquilador diante de um obstáculo. Aquela empáfia admirável, do tempo em que você é capaz de qualquer coisa e você tem sempre razão. Todas as coisas são alvos; você sai atacando; e você, só você, tem razão.”

Trecho de Fantasma sai de cena, romance recém-lançado pela Cia. das letras, de Philip Roth: definitivamente, um monstro.


sexta-feira, 13 de junho de 2008

trecho do conto "aqui na frente"

"já foi casa falada, dessas com cortina vermelha na porta, uma luz varando por trás. eu mesma, graças a deus, nunca entrei lá, mas sempre ouvi falar que o cheiro de dentro era bom, assim gostosinho."




sábado, 31 de maio de 2008

De volta das férias (do blog, apenas; quem me dera) não anunciadas, porque também eu não sabia delas. Ocorre às vezes de a fonte secar, e aí vamos descobrindo outras. Conversava dia desses com um grande amigo sobre isso. E ele, da área de tecnologia e internet, me dizia que os blogs, como de resto tudo nessa vida, têm hora para acabar. Concordo. Por sorte, ou azar, este acaba de ressuscitar...



A crítica de um filme que ainda não vi

A cidade ainda ali estava. Foi essa a imagem que vislumbrei ao, totalmente por acaso, assistir à beleza de encontro entre duas pessoas: o escritor português José Saramago e o cineasta brasileiro Fernando Meirelles.

Como é sabido, Meirelles dirigiu a adaptação para o cinema daquele que talvez seja o mais grandioso romance escrito em língua portuguesa por um escritor contemporâneo: Ensaio sobre a cegueira.

O filme, Blindness, rodado em parte no Brasil, é uma co-produção de vários países e conta com todo um suporte de mercado. Meirelles, que já quis filmar esse romance anos atrás, acabou sendo “contratado” para o trabalho; o projeto atual, portanto, nada tinha a ver com o diretor ao nascer.

Eu costumo privilegiar os trabalhos mais autorais, passionais mesmo. E, via de regra, esses trabalhos não são superproduções: Blindness é. Até aí, tudo certo: segundo os meus critérios tacanhos, as chances de o filme ser bom de verdade seriam menores. Nada além disso.

Mas um pouco depois, ao ser exibido em Cannes (ele abriu o festival, aliás), Blindness não teve boa recepção por parte da crítica. O que tampouco, por si só, diria alguma coisa.

O fato é que eu (critérios tacanhos), somando uma e outra coisa, já começava a me preparar para a frustração. E reduzia a praticamente zero as chances de se tratar de um – no mínimo – bom filme.

E aí, totalmente por acaso, zapeando uma tevê cuja programação chega por antena parabólica (e portanto há diversos canais de que nunca tinha ouvido falar), encontro-me com o encontro que mencionei acima – e linkei abaixo.

Que maravilha! Que bonito o choro já cansado de Saramago. Que bonitas as palavras toscas que Meirelles tenta vomitar. A falta de lugar para descansar as mãos, os beijos, afagos, o sentido de toda uma vida; talvez de duas vidas, ou três. A cidade ainda ali estava e, com todo o respeito, pau no cu da crítica.


José Saramago e Fernando Meirelles




quinta-feira, 10 de abril de 2008

Lembranças encobridoras

Era noite. Decerto, não muito tarde, mas, para as crianças, à noite sempre é tarde. Olhava para o chão, para a bola, para o meu avô, de novo para a bola, e vai e volta e vira.

O muro de pedras do prédio: destino para minha cabeça densa de dois anos e alguns meses. Manchas de sangue sobre (e sob) a camisa do meu avô, o seu susto, o seu medo; ele, réu.

O sangue, o choro, o elevador. Minha mãe. O hospital, meu pai, branco, luz redonda nos olhos. O mundo pela horizontal, o sorriso (nervoso) do meu pai, do meu médico, o meu médico. Apenas dois anos de idade – e ainda posso ouvir todo o burburinho.

Um corredor estreito. Cheiro de macarrão. Em uma das extremidades, um gol feito de traves de madeira e rede de linha. Eu devia ter uns oito anos; não mais que nove. Quintal da casa do avô. Futebol com o meu avô no gol que ele fez para mim (onde foi parar o gol?).

Eu devia ter voltado do treino, por isso usava chuteiras de travas (naquela época, esses campos eram de areia; não de grama sintética). E chuta a bola, e bate na parede, e chuta para o avô. Sua canela cansada e varicosa: destino para as travas da minha chuteira número 33. Seu grito (sufocado) de dor. Bolinhas preenchidas por sangue em sua perna. Como tatuagens.

Mertiolate, minha culpa, o sangue. O suor que secava antes do fim do jogo. Está tudo bem. Está tudo bem coisa nenhuma. No ano seguinte, talvez no próximo, o avô vai morrer. O neto não virou o craque famoso que prometia.

Mas o escarlate na camisa do avô, no começo da vida do neto, e as bolinhas na canela cansada e varicosa, no fim da vida do avô, sempre foram, hoje eu sei, o mesmo sangue. A partir de agora.

sábado, 29 de março de 2008

Um tapinha não dói?

Juiz do Rio Grande do Sul, ao julgar pedido de ação movido por uma ong de cuidados à mulher, condena produtora responsável pela distribuição do funk “Um tapinha não dói”, exaustivamente veiculado em todo o Brasil no início da década, a pagar uma indenização de R$ 500.000,00.
Outra canção – só que da gravadora Sony Music –, também envolvida no processo, foi absolvida (bem como o Estado, que teria permitido até hoje a veiculação de ambas). De acordo com o juiz, “Tapa na cara”, a música da Sony, gravada por um grupo de pagode, não faz apologia à violência contra a mulher – apenas descreve uma situação erótica consensual e comum.
Alguns elementos do caso chamam a atenção. Antes de mais nada, uma forma de resistência concreta a músicas que, dentre outros males, incentivam, sim, a violência à mulher parece ter vindo tarde. Muito tarde.
No entanto, fica a questão: seria essa forma de resistência censura? Em caso afirmativo, há que se ponderar a seguinte contradição: faz sentido reivindicar liberdade por meio de sua própria restrição?
O processo, ao que parece, é irracional e carente de sentidos, assim como ocorre, hoje, com boa parte dos produtos da cultura. Nessa medida, “Um tapinha não dói” e sua repercussão, incluindo os últimos capítulos, são emblemáticas. Explico.
Fruto polpudo da indústria cultural, “tapinha” reflete uma agressão em sentido mais amplo: trata-se de uma violação ao direito de reflexão de toda uma população. Mais um emblema da barbárie, que se alimenta de preconceitos e espetáculos profundamente irracionais – dentre eles, a violência contra a mulher, o alcoolismo etc.
Pergunto: o que faz o Estado diante da indústria cultural? Respondo: via de regra, vale-se dela em perfeita comunhão.
Infelizmente, somos todos agredidos – e nos agredimos – boa parte do tempo. Um tapinha dói, sim. A desumanização da barbárie, mais do que isso, corrói. Nada mais conveniente ao Estado, portanto, que o povo se divirta um pouquinho embalado pelo batidão anestésico de “Um tapinha não dói”. Justo?
Este é um julgamento a que eu gostaria de, um dia, assistir.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Quando dançava...


A rigidez costumeira se esvaía

O corpo se transformava em texto



E era um amontoado de signos

Compartilhados

domingo, 9 de março de 2008

O achincalhado

Palhaço

Que chora

Manchado

De

Sangue







sábado, 1 de março de 2008


Arranjam-se elos:
você não está mais sozinho e nunca esteve tão solitário.


Para onde meu barco vai?
Por que ele tem de chegar sempre antes da hora?
Eu – que sou tão atrasado.
A tal ponto que me atrasare
i até para a morte.
“É que o barco chegou antes da hora”,
vai me dizer um São Pedro resignado, bonachão.


E toco de volta.
A bile resmunga, resiste.
Um lampejo de consciência responde.
Alerta.
Cuidado: a vida passa.

Mas eu toco de volta.


E, sentado neste barco, o que eu vejo é a morte.
Eu vejo a morte passar.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Todo escritor é feito das palavras que esquece.




domingo, 10 de fevereiro de 2008

4 meses, ...


Assisti ao filme romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – há alguns meses portanto. Dirigido por Christian Mungiu, o filme, que entrou em cartaz no circuito paulistano recentemente, foi o grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 2007.

Se o roteiro não aborda um tema inédito – a trama é sobre um aborto –, a novidade fica por conta da maneira, ou – para utilizar um termo mais caro à estética – da forma com que a história é filmada.

Li numa crítica de jornal – não me recordo o autor, mas o veículo deve ter sido a Folha – algo sobre o anticlímax de que Mungiu lançaria mão ao longo do filme. Quer dizer, a temática pode ser batida; no entanto, ela sempre traz consigo boa dose de tensão. Para construção das cenas, segundo o crítico, o diretor se valeria de elementos que, ao aumentar tensão, eram retirados de uma hora para outra.

Eu concordo com a leitura; tanto que me permito ir um pouco além. Penso que o anticlímax não apenas aparece como um recurso do diretor: ele é fundante do filme. Um olhar atento à montagem revela que as situações são sempre “resolvidas” por meio do esvaziamento. Aliás, o plano mais forte do filme é indicativo de anticlímax – porque ele surge justamente quando o espectador já tem certeza de que ele não apareceria

:esvaziamento cru.

A escolha por um tema batido já é, por si só, fruto de anticlímax. Como se não bastasse, a experiência do aborto talvez seja a vivência máxima de anticlímax por que se possa passar. Esvaziamento de corpos.

Daí o trabalho grandioso, e paradoxal, do cineasta romeno. O cinema se faz basicamente da sucessão de imagens aliada à sonoridade. Mungiu logra resgatar o vazio que há na sucessão. Ao invés da corrida em direção aos 9 meses, algumas semanas a mais e sabe-se lá quantos dias (o que garantiria a perpetuação da espécie), trata-se de uma corrida às avessas. Algo como a antigravidez.

Em tempos em que se diz tanta bobagem sobre humanidade e aborto, 4 meses, 3 semanas e 2 dias mostra, sem maniqueísmos e ao limite, que uma experiência está contida na outra. E se não o faz didaticamente, tampouco o deseja obscurecer: o anticlímax, muitíssimo bem-sucedido, se escancara já no próprio título.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Leituras recentes

“Algum remédio estava sendo introduzido nele por via venosa, e ele tinha a vaga noção de que estavam tentando contornar uma crise. Não conseguia entender as palavras que a equipe trocava em murmúrios, e deve ter dormido logo em seguida, pois quando se deu conta do que estava acontecendo, já era o dia seguinte e ele estava numa maca, sendo levado à sala de operações.

Sua mulher na época – a terceira e última – não era nem um pouco parecida com Phoebe, e nas situações de emergência era uma verdadeira catástrofe. Não lhe inspirou nenhuma segurança na manhã da cirurgia, seguindo ao lado da maca aos prantos, torcendo as mãos, exclamando por fim de modo incontrolável: ‘E eu?’.”

(Philip Roth, Homem comum)

“Dessa sobrevivência do passado resulta a impossibilidade, para uma consciência, de passar duas vezes pelo mesmo estado. Mesmo que as circunstâncias sejam as mesmas, já não é sobre a mesma pessoa que agem, dado que atingem-na em novo momento de sua história. (...) Eis por que nossa duração é irreversível. Não poderíamos reviver-lhe uma parcela, porque seria preciso começar por desmanchar a lembrança de tudo o que aconteceu.”

(Henri Bergson, A evolução criadora)

“Olhe um relógio: o presente, para ser preciso, não está mais lá e, ainda para ser preciso, está lá de novo. Ele será lá a cada novo minuto. Eu penso, logo eu fui. O eu futuro se ilumina num eu passado. O presente é somente este movimento instantâneo e incessante. O presente é apenas um encontro. E só o cinema pode representá-lo deste modo.”

(Jean Epstein, “Arte d’événemment”)


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Trecho do conto "Equívoco"



"No entanto, não menos intrigado está o terapeuta. O símbolo máximo de saúde no grupo intentar contra a sua figura naquele nível é um dado extraordinário. Qual seja: houve uma comunicação inconsciente entre terapeuta e grupo, pela qual este sente o abandono iminente por parte daquele. Ou, para simplificar, o grupo se apercebe da própria evolução e teme, em função dela, ser abandonado pelo terapeuta. Nessa medida, um representante – não por acaso, referência no grupo – viola a lei e trata de demonstrar que eles ainda carecem de cuidados terapêuticos. Pelo avesso, tudo ao mesmo tempo perverso e previsível."

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Verdade assombrada


Desde o seu surgimento, o cinema é comparado aos sonhos. Uma história (um roteiro) contada por meio de cortes, closes, um fluxo nem sempre linear (a montagem), enfim, tudo isso condensado em uma série de imagens projetada numa tela gigante. De fato, há muito em comum entre cinema e sonho: mundos onde se é aquilo que dita o desejo.
Não é de hoje que David Lynch, cineasta dos Estados Unidos, tr
abalha diretamente em seus filmes a temática dos sonhos. Assim é no mais recente deles, Império dos sonhos (Inland empire).
Como já fez antes, a trama gira em torno (se é que ela gira mesmo em torno de algo concreto) das filmagens de um longa-metrage
m, em Hollywood, com um astro e uma aspirante a estrela.
E, por falar em Hollywood, é por demais sabido o quanto essa poderosa indústria explora a (não menos poderosa) relação entre cinema e
sonho. Grosso modo, procura-se cativar o espectador de modo a alimentar seus desejos impossíveis e, assim, mantê-lo alienado.
Mas esse mecanismo é fruto de um uso perverso dos sonhos, e Ly
nch parece saber muito bem disso. Ora, os sonhos devem nos fazer pensar, refletir, intrigar; jamais alienar. São construídos de matéria arcaica, extremamente pessoal, e nos possibilitam o eterno vir a ser: essência e alimento, tudo-isso-ao-mesmo-tempo-não-necessariamente-nessa-ordem.
Nesse sentido, a Hollywood de Lynch é (literalmente) negativada: o astro pode muito bem ser um tolo; a estrela, infeliz; o roteiro, cercado de mistério; Hollywood, sombria. O sonho enquanto experiência que pode ser estafante e difícil. Tudo isso filmado lá mesmo, dentro do próprio sonho.

Assim o cineasta traz, no limite, o sonho à tela: fragmentos que retornam, atrizes de outros filmes que simplesmente aparecem, o olho da câmera voltado para dentro. Uma tradução literal do título apontaria para “Império interior” ou “Império doméstico”; “Império voltado para dentro”, por que não dizer?
Um império regido pela verdade, porque s
ingular. É por isso que, muito mais do que criticar o modo de produção cinematográfica de Hollywood, David Lynch, que filma nesse reduto, realiza um cinema de profundidade, o qual, se não chega à verdade, ao menos a assombra.

domingo, 16 de dezembro de 2007




“Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.”

(Raduan Nassar – trecho do conto “Aí pelas três da tarde”)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Trecho do conto "A porta do quarto"

"À porta do quarto, pai e filho mais velho se enxergam. Lembram-se da conversa, há alguns meses, em que os três – pai, filho mais velho e filho mais novo – discutiram a respeito de quem morreria antes.
À porta do quarto, filho mais velho e pai riem, ou estariam chorando. Na verdade, ao longe, a impressão é de estarem rindo; mas, é fato: sob controle, choram."

quarta-feira, 28 de novembro de 2007


http://www.comartejr.com.br/originais/

clique nas imagens para ler o conto...











terça-feira, 20 de novembro de 2007

Campo e contracampo

O filho enfim engatinhou. Era só uma questão de mais espaço, o pai sempre soube; embora, até então, jamais tenha feito alguma coisa a respeito. Que cena linda – ele sentia. De algum modo, era também o pai que, continuado, dava os seus primeiros passos; ou melhor, joelhadas: extensão-que-se-estendia.
Jogo de cena
[1]. A potência não emana da atriz; tampouco da “vida real”. Não é o olho que vê o mundo; nem este que se apresenta àquele. Mas, como dizia Merleau-Ponty, aqui tratado apressadamente, a potência se encontra justamente no hiato entre a coisa percebida e a coisa lançada à percepção.
Essa concepção, longe de representar mera abstração, coloca uma série de pressupostos em sobressalto. É a ambigüidade da coisa levada ao limite, e nem por isso despida de objetividade. Pelo contrário: as coisas estão no mundo. Mas isso não basta. Porque as coisas são fissuras, rastros, contornos, enfim, são relevos do mundo. Portanto, aquelas não apenas estão neste: as coisas são mundo. Nesse sentido, o filme de Coutinho, vale dizer (bem como vale muito assistir), coloca com rara beleza o próprio mundo em sobressalto.
Ao fim do dia o pai se apercebe, mergulhado em outro filme
[2], de que a essência da morte pode ser a poesia. A vida é curta demais, é verdade, mas por outro lado ela encerra todo o tempo do mundo. Talvez, ele pensa, psicanalista novato, vivamos sonhando, sonhando, sonhando na busca por um sonho maior, que por sua vez, preto no branco, só alcancemos na morte: plenitude. A vida, assim, seria a iminência deste outro sonho. Contudo, aqui, igualmente distante de mera abstração ou do senso comum que este texto possa evocar, ele pensa com o filme e seu colorido sombrio e seus planos oníricos: as seqüências são versos.
Um filho é perder-se de novo. Por meio daquele par de olhos claros, tão bonitos e desconfiados, o pai sonhava o mundo outra vez. Ou mais ainda: ele se transformava em sonho. Um rastro de vida atravessou a sala. Corte. Plano do filho que se vira à procura dos olhos do pai. Campo e contracampo: era um só sorriso.


[1] Documentário de Eduardo Coutinho.
[2] A Via láctea, de Lina Chamie.


sábado, 10 de novembro de 2007

Quando se constata que tudo aquilo que tocamos vira merda e, mais do que isso, advém a inevitável comparação com a época (recentíssima) em que a coisa tocada virava ouro, então se trata de aviso certeiro: a vida vai realmente mal. Não por causa da transformação em merda, é bem sabido, já que tais metamorfoses, diariamente, fazem parte de uma vida saudável. Não por causa da merda, nunca é demais repetir; é a desobstrução das vísceras meus caros; alguma dúvida? – e o jovem professor tratava de mostrar em gesto que sua vida ia bem, muito bem, claro, nunca é demais repetir...

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Vida louca vida

Hoje de manhã, na chuva do trânsito, ele escutou “O tempo não pára”, de Cazuza; uma gravação heróica, ao vivo, no Canecão. A faixa dá nome ao disco (deve ter dado nome ao show também), muito bom, por sinal. Quem recomenda é ele mesmo, criança ainda, aos nove anos.
“Faz parte do meu show” fazia sucesso; e ele, que já gostava de MPB (nove anos!), queria porque queria o disco. Muito bem. Não era aniversário, dia das crianças nem outra data especial, mas seu pai o levou para comprar o vinil. Quanta alegria!
Ao chegar em casa, a primeira coisa a fazer era, obviamente, colocar a vitrola para funcionar. Ele se lembra da sua ansiedade, todo importante... e da necessidade que sentia em justificar, perante o pai, o interesse pelo disco (nove anos!). E o pai também, todo prosa, num “momento gente grande” com o filho pequeno, forçando um pouco a barra, como se gostasse muito de Cazuza.
O tempo não pára; é evidente. Essa cena tem quase vinte anos, e ele a traz tão viva, ainda. Ele não vai se propor agora à enfadonha tarefa que seria um balanço da sua vida; esta, por si só, já tão sem importância, por sinal. Contudo, alguma reflexão se faz inevitável, sobretudo quando se passa pelo que ele está passando. Reflexão que irrompe sem pedir licença, meio de carona em outras cenas.
Há alguns anos, abraçava (de verdade) pela primeira vez uma pessoa que encontrara nos últimos nove (nove anos!). Era sua última sessão de análise. Não se lembra de ter chorado durante algum daqueles encontros, mas, na última sessão, lá pelas tantas ele simplesmente não conseguia parar de chorar.
Enquanto se despedem pela última vez, o analista, também emocionado, lhe faz um pedido, quase um apelo. Como se cumpri-lo fosse, para ambos, questão de honra: “Seja feliz. Não deixe que nada nem ninguém te impeça de ser feliz”.
“Ser feliz...” Tema que dá muito pano pra manga. (Já foi assunto neste blog; ou melhor, no outro.) Todo mundo tem algo a dizer a respeito. Infelizmente, na maior parte das vezes, trata-se de ideologia pura, cada vez mais sem graça. A própria psicanálise (e, com ela, muitos psicanalistas) costuma se atrapalhar.
Não obstante, há idéias legítimas de felicidade, verdadeiramente engastadas às vidas de cada um. Por meio deste (às vezes penoso) caminho, vale a pena pensar a questão. Por exemplo, ele sabia do que o analista falava. E, por mais senso comum que a frase pudesse soar, os dois tinham (a quase exata) noção (nove anos!) da tremenda singularidade a que ela dizia respeito.
O tempo não pára, e ele vive de novo, como se fosse a primeira vez, as duas cenas. “Você sabe tocar o instrumento”, ele ouviu, também hoje pela manhã, de alguém que considera bastante. E daí? Aonde leva esta música? “Muito melhor o Admirável mundo novo, aquela assepsia do nascimento sem dores nem pais. Vivemos grudados, mas, em vez de sentir náusea da imagem – a invencível viscosidade das relações humanas –, ele sorri diante daquele pequeno joelho respirante e empacotado do outro lado do vidro...”
[1].
“Não... hoje é um abraço!”, ele é repreendido pelo analista ao tentar (apenas) lhe estender a mão. Na última vez.




[1] Cristóvão Tezza, O filho eterno (Record, 2007).

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Quando o tabuleiro se torna outra coisa

“Tudo aquilo que a tela nos mostra, contrariamente, pode se prolongar indefinidamente no universo. O quadro é centrípeto, a tela é centrífuga.” (A. Bazin)

Propriedade privada (Nue Propriété, 2006), filme dirigido pelo belga Joachim Lafosse, é um cinema, para dizer o mínimo, forte.
Quatro são as peças principais: uma mulher divorciada, seus dois filhos (gêmeos, jovens adultos) e seu ex-marido (o pai dos rapazes). A tela do cinema é uma espécie de tabuleiro onde as peças, motivadas por intensas emoções e afetos, se movem. Ou deixam de se mover.
A trama é sobre os vínculos estabelecidos nesta família, com o foco na relação entre a mãe e os filhos. Os três moram juntos na mesma casa (propriedade).
A exagerada dependência que os jovens mantêm em relação à mãe; a recíproca desta àqueles; a distância e amargura que fundam o pai; enfim, todos esses traços parecem imprimir às peças uma intensa vocação para o silêncio, para a estereotipia, para o nada.
Daí os planos angustiadamente longos, as exageradas – mas na medida – cenas durante as refeições e sobretudo a ênfase desenhada pelo diretor àquilo que está “fora de quadro”. Como se houvesse algo – que sempre escapa – para além dos limites do tabuleiro.
A aparente pasmaceira é, na verdade, feita de intensa energia psíquica. Não se trata aqui de uma latência posterior a uma situação traumática, senão de um círculo vicioso (como um jogo sem graça de pingue-pongue) que, aos poucos, dá mostras de que irá se quebrar. O trabalho de montagem toma nitidamente a direção de uma ruptura por vir.
E ela vem: o plano literalmente se estende pelo limite lateral do quadro: a imagem é cortada; rompida. A ruptura é a própria extensão entre o tabuleiro e o que está para além dele.
Rompe-se o círculo vicioso. Arromba-se a hipocrisia da propriedade privada: afetos não cabem encerrados em seus limites. De fato, há algo para além do tabuleiro. Mas, paradoxalmente, só se alcança este algo quando já é tarde demais.
E então, sabe-se lá como, as peças podem se mover. Os cacos são, também de forma literal, recolhidos. O espetáculo consuma-se. Fecham-se as cortinas. Não há mais nada a filmar. O olhar do espectador, por meio de um bonito e doloroso caminho, deixa para trás aquela história, até ela se verter em um ponto muito distante, de repente no infinito, e o tabuleiro já se tornar outra coisa...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Rastro

Deixo a livraria e disparo na direção do hotel. A noite asfixia o dia, o ar começa a me faltar, o hotel não chega nunca; ando e vou pensando. Estive nesta cidade um punhado de vezes, mas, em nenhuma, a conheci tão bem como agora.
Sem me dar conta, penso que sou José Costa vagando por sua Budapeste; o hotel não chega nunca. Eu ando obstinadamente, até ter a brilhante idéia de olhar a numeração da rua.
Constato: eu disparo na direção oposta à que deveria. Interrompo a marcha. Olho para trás, e vejo o que deveria estar na frente; um rastro de história.
Estive nesta cidade um punhado de vezes, mas, em nenhuma, a conheci tão bem como agora. Esquinas desconhecidas, moradores escondidos, suas entranhas, o para dentro.
Aí me dou conta de que a dor muscular é, na verdade, um prenúncio de orgasmo. Porque, sem exagero, eu e esta cidade trançamos nossas pernas em uma só coisa; em um só rastro.
E, ao tomar a direção contrária, conheço um pouco mais de mim...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Fotografia e cinema: Querô e Auschwitz



Há duas semanas, o Museu Memorial do Holocausto, nos Estados Unidos, divulgou uma série de fotografias de oficiais da SS em Auschwitz. Imagens do período, antes de o campo ser desativado, são raras. O álbum entregue ao Museu por um antigo oficial do serviço de inteligência do exército dos EUA contém 116 fotos, o que já bastaria para que as imagens chamassem atenção. No entanto, a principal causa do impacto provocado pelas fotografias não se relaciona à sua quantidade, senão à qualidade. Explico.
As fotografias revelam momentos de lazer dos oficiais. Elas mostram em cenas cotidianas - aconchegantes - pessoas que, momentos antes, por exemplo, mandavam alguns "prisioneiros" para as câmaras de gás e outros para os campos de trabalhos forçados, assim como quem escolhe feijão.
As cenas deixariam qualquer árcade com inveja. Uma sesta depois do almoço, uma roda de dança, um flerte entre duas pessoas. Nada mais bucólico.
Ora, quem é que não faz essas coisas? Pois bem. Os algozes de Auschwitz também o faziam. É o que os retratos dão a ver.
Recorro rapidamente a Susan Sontag. Para essa autora, a fotografia fragmenta o real, confere-lhe opacidade e assim, podemos dizer, revela-o em sua ambigüidade. Ou seja, a fotografia não se presta a explicar ou meramente ilustrar situações. Ao contrário, ela é poderosa porque fascina. Intriga.
Esses retratos de Auschwitz são fragmentos de um real extremamente complexo, chocante, cruel. E, como se não bastasse, abordam o outro lado dos monstros: evocam alguma humanidade naqueles corpos. A ambigüidade dos fragmentos opacos se potencializa. É por isso que essas fotografias tanto nos interpelam; somos fortemente tentados pela coisa ambígua.
Não poderia ser diferente: o resultado da percepção dessas fotos é extremamente chocante. É que se constata que o mal encarnado nos corpos daqueles oficiais tinha por contraponto momentos de ingenuidade; o bem. Percepção dura. Opaca.
Impactado pelas fotografias, ainda no dia em que foram veiculadas, assisti no cinema a Querô, filme nacional de Carlos Cortez, adaptado de uma peça de Plínio Marcos.
Trata-se da história de um menino cuja mãe se suicida ao ingerir querosene. Seu apelido (sua identidade) é herança direta do suicídio da mãe; “Querô”, de “querosene”.
O menino cresce em um ambiente extremamente hostil: o mundo o engravida de ódio. Do começo ao fim, o filme é muito forte. A câmera nervosa capta a todo o tempo os primeiros planos. O ódio focado: do mundo a Querô; deste àquele.
Querô é capaz de grandes atrocidades. Sem economizar nas tintas, Carlos Cortez pinta o seu protagonista com as cores do mal e, por meio disso, resgata toda – e não é pouca – a sua doçura.
Ou seja, o negativo das fotos de Auschwitz. Se nestas o bem vem em primeiro plano à medida que o mal exorbita o fundo, no filme Querô o mal ocupa o lugar de figura enquanto o bem o de fundo. Mas, nas duas situações, o fundo arrebenta na superfície: marca da coisa ambígua, que insiste em se apresentar por aquilo que não é.
É intrigante pensar que aqueles oficiais fossem capazes de atos ingênuos. São chocantes as agruras que sofre e comete um menino tão doce.
Na verdade, Querô (não o personagem; o filme), feito de fragmentos costurados (o mundo), é que é capaz das maiores atrocidades. A saber, dar à luz oficiais da SS, os quais, como todos nós, também procuravam algum aconchego. Nada mais humano.