segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sementes invisíveis

Para o amigo Daniel Schor

Amantes (Two Lovers), filme dirigido por James Gray inspirado na novela Noites Brancas de Dostoievski, fala sobre fusões. Nesse sentido, tanto o título original quanto a tradução para o português são felizes, mas talvez seja ainda melhor considerar, ao mesmo tempo, as duas opções.
Considerar ao mesmo tempo as duas opções, aliás, é o que o protagonista Leonard, diagnosticado com transtorno bipolar, procura ao longo de quase toda a história.
Os pares são muitos – e estendem-se das fusões de negócios familiares à fusão de olhares. A fotografia, que beira o sombrio, azeda a água com açúcar que um olhar mais desavisado poderia esperar. E tampouco se equivale às fotografias em preto e branco que o olhar jovem e já cansado de Leonard recorta. Faz par com elas: vá lá, são amantes.
E os amantes, em Amantes, lembram um pouco os casais da “Quadrilha” de Drummond. O corredor com as fotos da família, por onde Leonard passa no início do filme, é emblema do peso que ele carrega – em alguma medida, um peso previsível.
O impacto da trama não é exatamente o fator surpresa. Interessante no filme de James Gray são as (im)possibilidades decorrentes das (com)fusões.
Do aborto ao sexo selvagem, do afastado bairro cinza à Manhattan multicolorida, na ópera ou em um Bar Mitzvah, em mania ou depressão, cedo ou tarde, toda luva espera por seu anel. O que nem sempre sabemos, contudo, são as circunstâncias que envolvem aquilo que acontece. E, mais do que isso, em que medida os próprios acontecimentos, às vezes previsíveis, ganham outros significados.
Felizmente, isso o filme não mostra – apenas sugere. Como as fotografias em preto e branco de Leonard – sementes invisíveis – em que há apenas paisagens. As pessoas, ele diz, não precisam estar nas fotos. Elas participam com o olhar.

3 comentários:

Flor disse...

me senti meio assassina... que bom que retorna ao(s) amigo(s).

Beijos

Dri disse...

Oi, Renato! Saudades de "falar" contigo através dos nossos blogs. Obrigada pela visita e pelo elogio tbém. Esse seu texto me lembrou o texto do Walter Benjamin, "O Narrador", que diz que os textos são sementes que germinam a cada leitura e sobrevivem ao tempo desse jeito, porque as pessoas participam lendo.
Beijos
P.S.: quando será que vamos conseguir falar pessoalmente, né?

Fernando disse...

como vc é bom nisso.