...
A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas um pouco mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, soprar-lhe alguma coisa ao pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.
No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:
Pai, o que você disse pro vô aquela hora?
Meu pai traduzia uma música triste em inglês que tocava no rádio – ele tinha esse hábito. Surpreendeu-se com a minha pergunta, interrompeu a tradução, pareceu ter olhado para dentro de si. Disse:
Qualquer dia a gente se vê, pai.
O caixão fechando, a visão do rosto do pai pela última vez. Eu ali diante do meu pai, a música triste no rádio: qualquer dia a gente se vê, pai. Meu pai retomou a tradução, eu comecei a chorar. No começo bem baixinho, depois compulsivamente. Eu tinha só dez anos, mas chorava como adulto.
Mais velho me dei conta de que esse choro talvez nunca tenha cessado. Se havia resignação na fala do meu pai, ela trazia também um farto sopro de esperança: reencontro. Naquele dia, eu percebi que algumas coisas belas são sempre um pouco tristes – e algumas coisas tristes são sempre muito belas.
Passamos a vida à procura do pai.
E agora, desenterrando essas lembranças todas, conjecturo o que o meu pai irá soprar ao meu ouvido.
Não ouço nada.
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A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas um pouco mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, soprar-lhe alguma coisa ao pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.
No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:
Pai, o que você disse pro vô aquela hora?
Meu pai traduzia uma música triste em inglês que tocava no rádio – ele tinha esse hábito. Surpreendeu-se com a minha pergunta, interrompeu a tradução, pareceu ter olhado para dentro de si. Disse:
Qualquer dia a gente se vê, pai.
O caixão fechando, a visão do rosto do pai pela última vez. Eu ali diante do meu pai, a música triste no rádio: qualquer dia a gente se vê, pai. Meu pai retomou a tradução, eu comecei a chorar. No começo bem baixinho, depois compulsivamente. Eu tinha só dez anos, mas chorava como adulto.
Mais velho me dei conta de que esse choro talvez nunca tenha cessado. Se havia resignação na fala do meu pai, ela trazia também um farto sopro de esperança: reencontro. Naquele dia, eu percebi que algumas coisas belas são sempre um pouco tristes – e algumas coisas tristes são sempre muito belas.
Passamos a vida à procura do pai.
E agora, desenterrando essas lembranças todas, conjecturo o que o meu pai irá soprar ao meu ouvido.
Não ouço nada.
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P.S.: Do Avesso, meu livro de estreia, já está pronto. O lançamento não deve demorar. Seguirei dando notícias.

4 comentários:
Professor ou, agora, colega de trabalho Tardivo?!!! (rs)
Há tempos entrei aqui como sua seguidora, mas nao via posts, poxa vida! Mas este recente veio para compensar o tempo perdido hein... Profundo, lindo e verdadeiro!
Será lançado "Do avesso" então? Bom saber... Me avise qdo, por favor! quero ler!!!
:)
Bjão,
da ex-aluna e amiga Verônica.
Este é o que eu chamo de texto flagrante, Renato; muito bom e o leitor deve suspirar, ao final...Quanto ao teu 'Do Avesso', parabéns e não esquece a conexão Bahia. Abç.
Caríssimo,
a nau do google me trouxe aqui. Mundo pequeno.
E nesse "Passamos a vida à procura do pai", parei. À procura, às voltas com, tentando se desprender de, esperando por, com raiva de, rindo com...
Afortunadamente, às vezes, um olhar e um sorriso acolhedores por quase, quase uma vida inteira.
Caríssimo, se vc. for afortunado assim, com certeza ouvirá. Muito. Talvez não seja ainda o momento.
Leitora atenta.
Renato, cadê o post novo que estava aqui?
Parabéns pelo livrão! Já marquei na agenda, estarei lá!
Abraços!
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