Paulo Lima é editor do "Balaio de Notícias"
Nunca vi título tão apropriado. De fato, nos contos, as situações se revelam pelo avesso, como a parte não visível de um iceberg. Os contos têm excelente ritmo, e as palavras são precisas, o mot juste de que falou Flaubert.
São contos curtos, porém que mostram densas atmosferas. João Carrascoza sintentizou à perfeição numa frase: seus contos são "enganosamente singelos". No fundo, há toda uma estranheza a perpassá-los, estranheza que é típica dos relacionamentos, da natureza humana. No fim, as coisas não são o que pensamos delas.
Naturalmente, alguns contos são mais fortes e vibrantes que outros. Costumo usar uma espécie de "medidor" pessoal para identificar quando um conto, uma narrativa me agrada. Trata-se do tempo que a história e seus personagens são capazes de permanecer no meu imaginário.
No caso do seu livro, alguns contos têm essa capacidade . A começar pelo primeiro, "Queda livre", muito bem estruturado e com um final surpreendente. Depois vêm alguns contos que tematizam a infância. Desses, meu preferido é "Ariel". Achei sensacional a forma como você, por meio de uma simples "torção" na narrativa, abre uma fenda do tempo para a infância do personagem. Um conto muito bonito.
Ao longo da leitura, fui salientando, inclusive, frases soltas que, por sua beleza, ou sabedoria, me impressionaram. No conto "A mãe do filho", destaco esta aqui: "As mães dão as vidas aos filhos para depois viverem as delas próprias esperando por eles". O próprio conto em si é muito interessante.
O livro é uma prova de que pode-se atingir níveis de subjetividade com uma linguagem bastante objetiva. Um exemplo é o "Maria Lúcia", breve como um suspiro, mas capaz de tematizar a questão da dominação e posse de uma forma exemplar. Sublinhei nesse conto mais uma frase lapidar: "O amor nasce, se ali m enta e padece de vestígio das coisas".
Em outro conto, "Gertrudes", outra construção inventiva e bela: "Gertrudes já acumulou o enterro de um filho, três diplomas universitários e pouco mais de sessenta anos".
Como não poderia deixar de ser, a vivência de psicanalista se refletiu em alguns contos. Desse "grupo", o melhor, na minha opinião, é "Semana que vem a gente continua". O outro conto, "Equívoco", apesar de mais longo e criativo, convence menos.
Mais um conto que remete à infância e que muito me agradou: "Graça". Fiquei na dúvida se o conto que vem a seguir, "Desgraça", seria uma continuidade.
O "Cinema diário" é um excelente conto, não sei porquê me lembrando algo de Rubem Fonseca. O absurdo do conto "Desambarque" é fantástico, com alguém querendo se passar por outra pessoa, acentuando as situações de estranhamento, desencontro e incerteza que perpassam a maior parte dos contos.
Outro ponto positivo é a ideia do final infinito. Os contos, em sua maioria, deixam o final em suspenso, cabendo ao leitor imaginar coisas.
O conto de que menos gostei foi "Analgésico". E creio que o livro não poderia terminar melhor com "mr. Trautman". Nesse conto, mais uma frase lapidar: "Um escritor é feito das palavras que esquece". Isso talvez pudesse ser lido assim: "Um escritor escreve sobre o que vemos e não sabemos dizer; ou sobre o que esquecemos; ou sobre aquilo que não é facilmente visto, o avesso das coisas".
Uma estreia bonita e consistente.

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